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Artigo:Covardia e Desenvolvimento Dependente
De Corruptopedia
Covardia e Desenvolvimento Dependente
Artigo de Rogerio Cezar de Cerqueira Leite, físico, é professor emérito da Unicamp. Publicado no Jornal da Ciência, 13 de setembro/99 - No. 1375 - Noticias de C&T - Servico da SBPC Este artigo saiu na “Folha de SP” , 13/9/99.
O episodio que resultou na demissao sumaria do ex-ministro "do Desenvolvimento" seria meramente comico, apenas mais um dentre os muitos desencontros grotescos do governo neoliberal do PSDB, nao confirmasse ele um designio tragico para o pais, o da "servidao voluntaria", descrito no classico "Discurso", obra postuma de La Boetie (1530-65), o paradigma de Montaigne.
Comecemos, entretanto, com uma concepcao apenas um pouco mais recente. Se alguma coisa restou inabalada da obra revolucionaria de David Ricardo foi o "teorema dos custos comparativos": "Portugal pode produzir a unidade de vinho em 80 horas e a de tecido em 90, enquanto a Inglaterra produziria a primeira em 120 e a segunda em 100. Se cada pais fabricar uma unidade de cada produto, o dispendio global de horas seria de 390 horas. Se entretanto a Inglaterra se especializasse em tecidos e Portugal em vinho, para a mesma producao seriam consumidas 360 horas, com um ganho de 30 horas". Economistas absorveram a tal ponto esse postulado que para eles sua atuacao ja’ e’ inconsciente.
Alem do mais, nao se restringe ‘a producao de bens, ou ‘a prestacao de servicos, mas se estende o referido dogma ate’ a geracao de conhecimento. Basta no enunciado acima substituirmos Portugal por Brasil, Inglaterra por EUA, tecido por ciencia e tecnologia, vinho por suco de laranja. E’ claro que o triunfo do livre comercio, do qual o Brasil se tornou um paladino, a globalizacao e o neoliberalismo social e politico sao alavancas que reforcam a especializacao.
"Ora", diras, "ai estao apenas teorias. Essas forcas sao certamente neutralizadas por outras, racionais e emocionais. O patriotismo ainda existe, a defesa de um futuro mais generoso para todos, a cidadania, a solidariedade, a identidade nacional".
De fato, ha’ resistencias, mas as evidencias sao que o teorema de Ricardo se torna inexoravel com a globalizacao associada ao servilismo consentido, cujos limites de tolerancia foram descritos por La Boetie. Se nao, vejamos. Os indicios aqui apresentados sao de duas naturezas. Em primeiro lugar, demonstraremos com dados concretos que ha’ um exodo de cientistas oriundos de paises perifericos para os EUA, como evidencia da especializacao em ciencia e tecnologia daquele pais. E em seguida demonstraremos que a administracao FHC planeja para o proximo milenio liquidar a pesquisa no Brasil.
1) Ja’ em 1984 um estudo realizado pelo Departamento de Comercio Americano concluiu que o ganho, entre 1950 e 1975, para os EUA fora de US$ 8,6 bilhoes, por ano, em media, devido ‘a emigracao de cientistas e engenheiros. Em 1993, 37% dos professores de engenharia e 27% dos de matematica e ciencias de computacao nos EUA eram estrangeiros. Em ciencias exatas, nas grandes Universidades americanas, os percentuais ainda eram maiores. Recentes estatisticas da Fundacao Nacional para a Ciencia (NSF) dos EUA mostram que 63% dos estudantes estrangeiros de pos-graduacao pretendem permanecer nos EUA. Como demonstrou David North, em seu "Soothing the Establishment: The Impact of Foreign-Born Scientists and Engineers on America", as Universidades americanas discriminam estrangeiros e com isso selecionam os melhores cerebros. Apesar disso o numero de doutoramentos em engenharia, computacao e matematica dobrou entre 1985 e 1995 nos EUA, e esse aumento foi devido exclusivamente a estrangeiros. Alem do mais, e’ um fato bem conhecido da antropologia que o imigrante e’ um individuo mais fortemente motivado. E em ciencia essa e’ uma condicao altamente acentuada. Nao ha’ grande cientista provinciano. O cientista, mais que qualquer outro profissional criador, procurara’ condicoes ideais de trabalho. Se o pais que mais valoriza a pesquisa e’ os EUA, se e’ la’ que encontrara’ condicoes ideais para realizar seu trabalho e seu sonho de gloria, as forcas que o reterao no Brasil, materiais ou emocionais, terao que ser formidaveis.
2) O Brasil lancou recentemente um plano para o "desenvolvimento" nacional chamado "Avanca Brasil". Nesse plano, e’ reservada uma verba para o desenvolvimento do conhecimento e da informacao equivalente a 0,25% do PIB. O Planejador Maravilha explica que, alem do Orcamento federal, havera’ as contribuicoes dos Estados e da iniciativa privada. Nossos calculos particulares mostram que Estados estao contribuindo no maximo com alguma coisa proxima a 0,05% do PIB, uma vez que o ensino de cursos de pos-graduacao deve ser incluido no item referente ‘a educacao. Se o ensino de pos-graduacao fosse incluido no item pesquisas, nao mudaria muito, entretanto. A contribuicao dos Estados, nesse caso, nao ultrapassaria 0,1% do PIB.
O MCT vem atribuindo ‘a industria multinacional no Brasil participacao expressiva em pesquisa. Devem ser pesquisas secretas, pois ninguem conseguiu ate’ hoje o menor vestigio de sua existencia. O registro de patentes e o levantamento de trabalhos publicados mostram que nada, absolutamente nada, Alias como era de esperar, foi realizado no Brasil. Um ex-ministro da C&T chegou ao cumulo de reconhecer publicamente que nao apenas estava o seu ministerio incluindo como pesquisa, no percentual do PIB, a compra por subsidiarias de multinacionais de projetos ("blue prints") de fabricacao de veiculos e de outros artefatos e processos para producao de substancias de suas matrizes no exterior, mas indo muito alem, doando recursos para tais aquisicoes. Ou seja, subsidiando a engenharia no exterior. Infelizmente, as poucas empresas nacionais que restam ou sao muito pequenas ou nao possuem a cultura adequada. Em resumo, a empresa privada, multinacional ou nacional, e Tambem o que restara’ da empresa estatal em nada contribuirao para a pesquisa cientifica e tecnologica nacional, e apenas de maneira marginal para o desenvolvimento de produtos e processos.
Esse 0,3% ou 0,4% que o programa "Avanca Brasil" destaca para toda a ciencia e tecnologia e informacao (inclusive Internet 2), incluindo os setores privado, estaduais e federal, deve ser contrastado com os 3% que, em media, os paises desenvolvidos ja’ dedicam ‘a pesquisa.
Em resumo, demonstramos que as forcas derivadas da inclinacao crescente para a especializacao ja’ estao em atividade, sugando o talento que existe no Terceiro Mundo. Demonstramos, por outro lado, Tambem que o Brasil, conscientemente ou nao, ja’ se conformou com essa ideologia do "desenvolvimento dependente", que pouco difere da "servidao voluntaria", embora a retorica, com frequencia, seja outra. E, por incrivel que pareca, foi o entao ministro do Desenvolvimento, notorio burocrata, que diagnosticou: "E’ covardia". Embora nao soubesse identificar de onde realmente brotava com tanta exuberancia esse vicio.
(Folha de SP, 13/9)

